sexta-feira, 17 de abril de 2015

Do amor e seu alimento





















Cansei de amar
de amar o próximo e o distante
Aprendi que o amor é um sacrifício dispensável
Muito mais que sacerdócio,
amar o amor é o tênue vício da esperança
do inalcançável instante de estar próximo
Cansei de estar
amando o ausente no presente
e assim, sempre distante,
o meu desejo inabalável
eternamente insaciável, insaciado.

Sim, são ridículas todas as cartas de amor
por que o amor, ele sim, ridículo,
estende-se em cada adjetivo
como uma víbora ao sol da linguagem
Desaparece na lassidão dos verbos
atado em cordas que não se rompem
como um Hamlet condenado a não agir
movido pela crença nos fantasmas
O amor é esse querer ser e nunca sendo
Segue sempre só querendo
E sendo amor, sendo ridículo,
Pura invenção.
Cansei, cansei
O amor que vá pastar noutro gramado
Meu coração é terra devastada.





sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Nome

                       


Para Michel Foucault

A coisa vista será nova
medirei com régua,
compasso ou coração?
Observarei a coisa com óculos? lupa?
micro ou telescópio?
Talvez feche os olhos para enxergá-la melhor
e assim será nova a coisa, sempre.
Darei então um nome à coisa
tomarei posse dela
e a depositarei no mundo já nomeado
retirando dela a graça e o mistério.
Depois entrarei na coisa,
que já não será “a coisa”,
e darei ao mundo fora dela um novo nome.
Essa brincadeira de criança
tem se repetido desde Homero.
Quem é o ser, se houve algum,
que se apossou de Tróia e de Helena?
Que nome darei à Ulisses
daqui da outrora-coisa minha?
Que mundo meu me aguarda
a mim, sua coisa ainda desconhecida?
São milhares as vias entre os cosmos
e eu apenas quero um nome
um nome apenas para caminho.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Tabu

  




A embriaguez de Noé, Michelangelo, Capela Sistina


Matei meu pai a dentadas
comi-o, provei da raiz de minha árvore
sepultei-o, sob obturações gastas, em minh’alma cariada
mato-o a cada parco e porco dia que perco
conspurco-o para sobreviver e ser
silencio sua boca, escuto seus gritos
mordo sua língua, saboreio seu desejo
selo seus ouvidos e arranco seus olhos
para enxergar melhor
cumpro o meu papel de caminhante
traço o meu caminho em seu cadáver
estendido no varal que armo em meu quintal
quem de vocês não trás às costas esse morto-vivo?
quem, de nós que nunca nos saberemos, 
não exerceu o ofício de coveiro e de obstetra a cada manhã?
sinto sua crença em minha descrença
sua coragem em meu medo
e seu pavor nos meus passos.



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A História da História










Reza a história
Deus fez o mundo por classes
a operária e seus panfletos
a campesina e seus novilhos
a milionária e seus fedelhos
a burguesia e seus conflitos

PS: a burocrata e seus adendos

Deus fez um mundo perplexo
o operário e o camponês
devotos
o milionário e o burguês
devassos

Reza a história
o operário escreveu panfletos de modo aflito
o camponês perdeu novilhos de fome e sede
o milionário criou fedelhos no ócio e vício
o burguês criou complexos de medo e cio
o burocrata organizou fichários e verbetes
e pôs o Senhor no arquivo morto
por excesso nos pendentes


Deus, arrependido da criação,
para reparar o erro
inspirou um pobre alemão
a fundar o Partido Comunista
e finalmente, como bom baiano,
foi para Arembepe pegar um bronzeado
deitar suas fartas barbas na água quente dos trópicos
e esperar a hora do juízo
... que ninguém é de ferro.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Do homem


















Onde o homem bota a mão
Há beleza e podridão
Se é de humana gestação
Tens o gozo e a danação.

Onde encontro o humano tato
Tenho a flor e o chão queimado
Onde o engenho humano é dado
Vejo a cura e o abortado.

Besta e anjo, deus e caos
Segue o homem seu calvário
De ser céu e ser inferno
Sendo um que é sempre vários
De ser luz e escuridão
Ser certeza e ser engano
Monstruoso e angelical
Simplesmente ser humano





sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Dono de mim















Perdoa, amor, se não te trago flores
Nem perfume de raro olor
ou singularíssimos odores;
se não te mostro dentes brancos,
roupa de linho, mãos macias; perdoa
se não te toco como o hálito de um deus
ou se não rio o riso de um encantado.
Perdoa, amor, se não te ofereço conforto
consolo, aconchego, carinho e colo.
Perdoa se caos e não sossego,
se não tenho nada daquilo que esperas,
se não sou realmente aquilo que projetas,
se não estou propício a ser e ter o que te agrada,
pois sou dono de mim.

Perdoa, amor, se não tenho palavras raras,
se minha língua baba mais do que o devido,
se meu suor é mais visguento que o preciso,
se meus pés correm mais caminhos que os avisos
de não correr, de não suar e de não babar.
Perdoa, amor, se meus limites vão além do teu infinito,
se sou muito maior que o teu incabível,
se minhas asas te importunam, causam espirros,
se não posso nunca ser o que pensas que precisas
Perdoa, amor, por amares em mim o não tido,
por portar a nódoa, a marca, a mácula das ruas
e por trazer as mãos sujas do barro do real,
pois sou dono de mim.







terça-feira, 5 de agosto de 2014

Script

Se morre um menino
sob as patas do adulto triste,
o que existe,
além do dedo em riste?

O que resiste
é o inexorável destino que ainda insiste:
o adulto morto num menino que persiste.