quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Ícaro











Ricardo Gauthama
"Mergulho nas nuvens #3"
Óleo sobre tela
25x25cm
2014





Cabe em teu seio
toda coragem, todo medo
toda voragem e receio
talvez até caiba o veio
de onde flui teu desejo
onde goteja o querer.

Cabe em teu seio
teu mais sagrado segredo
a vontade de só ser
aquele que veio ao mundo
encravado num profundo
corpo estranho de outro ser.

Cabe em teu seio
todo amor de humano tato
oculto amor intimorato
que ousa, sim, dizer seu nome
em teus seios nus, estampado
e na vagina exposta em flor
sem pétala, caule ou perfume
antes do voo sem véu
muito além desse céu
sem limite além do seu
desejo de pousar noutro jardim
e de se aventurar onde quiser.

domingo, 18 de novembro de 2018

A décima-sétima praga




                       











"Brejo", Leo Almeida, 2018





Havia um general na sala
O dia nem amanhecia
Coturno limpo que brilhava
Na luz do sol que já surgia

Havia um general no sótão
Outro sob o meu colchão
Aquele palitava os dentes
o outro cuspia no chão

Havia um general no quarto
Outro na lavanderia
Lustrando suas quatro estrelas
Que nos cegava e perseguia

Um general sob o chuveiro
Um outro entupindo a pia
Com restos grossos de seus pelos
Que ao barbear-se ali caíam.

Havia um general bisonho
Que assobiava na cozinha
E um outro de olhar tristonho
Nos vigiava e nos sorria

Por fora, generais a rodo
Na casa, toda essa alcateia
Uivando e celebrando em gozo
O fim possível de uma ideia

Não sabe, ó general, um sonho
Não morre sob seu coturno
Não some, mesmo que um medonho
Mundo se mostre soturno

Não míngua à noite mais escura
Não murcha ao golpe mais rasteiro
Há generais na minha rua
Há generais no mundo inteiro

Havia generais à porta
E outros gorilando ao fundo
Ouvia o som de suas botas
Em seu caminhar rotundo

Um general de dez estrelas
Olhou-me com desdém profundo
Sabia ele, inconformado,
Que dentro, em mim, havia um mundo

Um território independente
Livre de qualquer caserna
Longe de qualquer patente
E que a si próprio se governa

A história nos tem ensinado
Que a liberdade não se entrega
Sabia o general armado
Que a morte não mata uma ideia



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Depois da tempestade





















Para meus amigos de trincheira

Na manhã seguinte,
depois da grande tempestade,
havia, espalhados pela praia, restos de uma grande embarcação
muitos corpos jaziam de olhos abertos,
estáticos, aterrorizados,
e um silencio assustador berrava do oceano
- Tempo de ceifar, tempo de ceifar –
mas um deles levantou-se
e começou a juntar os pedaços
disciplinadamente
recompondo-os obstinadamente
na tentativa evidente de reconstruir a nave
no que foi seguido por outro e mais outro
e mais outro
e logo todos estavam trabalhando sem medo
e cantando alegremente contra o vento e contra as marés
- Tempo de reconstruir, tempo de reconstruir –

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Pesadelo


    














Sem título, Leo Almeida, 2018


para uma faca

Não retirem as crianças da sala, deixem-nas,
é preciso que vejam o dedo em riste do Coiso,
é preciso que se mordam, se rasguem, que sangrem devagar,
pois o sacrifício infante do futuro faz parte do ritual da ascensão do Coiso
Na sala, diante da tv, a família de bem, branca e cristã,
reza pela saúde do Coiso e pela morte de negros bandidos,
pela eliminação de lascivos e preguiçosos quilombolas,
pela erradicação da epidemia de veados no país
pela colocação da mulher em seu devido lugar
como prometeu o Coiso que fará.
E será na pancada que o macho vingará e tornar-se-á cidadão do bem,
bom cristão com o cu íntegro e a alma avariada.
Na bala, garantirão um país do atraso, um talibanato tupiniquim
pela honra e glória de um Jesus Cristo hegemônico e envergonhado.
Em cada escola, a foto de heróis que matam cidadãos amarrados,
de heróis que torturam operários, estudantes, profissionais liberais
e talvez, então, seja feriado na data de nascimento do grande torturador
ídolo do Coiso e de uma legião de animais que babam seu ódio
sobre nossas cabeças abaixadas e covardes.
E então, quando o país mergulhar na escuridão,
e nossos jardins estiverem arrasados,
poderemos chorar pelos cantos, escondidos,
- homem que é homem não chora –
de tristeza e arrependimento,
e ninguém vai ver.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O olho do boi











Ela quer que eu fale de flores
de rosas, crisântemos, talvez lírios
- não são lindas? –
Ela quer, ela quer, meu deus, ela quer
porém não sei uma pétala sequer
de lírios, rosas ou crisântemos.
Então ela insiste que eu cante uma balada,
uma canção de Cat Stevens, um blues
- Sua voz é tão linda quando canta Where do the children play?
Pode ser? –
Ela quer, ela quer, meu bom deus, ela quer
mas meu violão desafinou na eternidade quando,
em alguma dobra, enforquei-me em suas cordas de aço
e meus dedos,sangrando, perderam-se nos trastes
Digo a ela que não rola: - Fica tristinha, não!
Prefiro em silêncio observar as mãos que ela exibe enquanto fala
e que ficam borboletando sobre o meu desejo
em seu casulo prestes a romper-se.
Ela dorme o sono manso dos que acreditam
que tudo é para sempre, que todos são felizes
mas há tempos algo me impede de sorrir
Enquanto ela me arrasta para a luz
eu só penso na lágrima do boi antes do abate
enquanto ela me convida para dançar na luz
eu sinto a dor do boi antes do abate
e quando ela me abre os olhos para a luz
me vejo no lugar do boi e do abatedor
e tudo é tão escuro,tão escuro
que dá medo.