quarta-feira, 9 de julho de 2014

Eu e ele







"Weird cloud formation", Goro Fujita


Quando digo não
meu coração reclama
ele sabe - e eu sei -
que definitivamente
não nos conhecemos

ele é sempre o bom menino
eu, o sacana
sou sempre o estraga-festa
ele, o bacana

meu coração não me engana

ele ateia o fogo
eu que vou em cana
ele quebra os vidros
eu que levo a fama
ele o mais esperto
eu sempre o banana

meu coração me esgana.





terça-feira, 8 de julho de 2014

Evangelho do Lodo









À maneira de Manoel de Barros


Sinto as raízes cantando
no tom do lodo e das pedras
o cheiro doce da luz das rãs

a carne farta da terra
anoitecendo nas gias
lesmando o sonho...desacordar.

Amanhecerei orvalho
entardecerei riacho
anoitecerei no teu suor

madrugarei tempestade
vento ventando vontades
serei semente vibrando ao sol

Almas das águas dos rios
borboletando no cio
do faz-de-conta que não tem fim

e ao me perder, criar limo
brotar canção, virar bicho.
Sei do desgosto de ser capim

O desandar das lagartas
sobre o azul de fastio
tanta saudade chovendo em mim

pelas goteiras da alma
sinto encharcar-me da calma
de quem sabe que trilha seguir.

Saudade é a luz quando escuro
o deslizar nobre e seguro
das cobras d' água no pantanal

bicho sem nem canseira
eis a saudade...certeira
ei-la, tocaia no meu quintal.
  
Se sabe a cruz, sabe a chaga
de quem conduz pela espada
de quem tem justo por não crer

na paz das almas marcadas
no chão das crias aladas
no que se passa antes de chover

Vem ver a noite emprenhada
a cor da estrela abortada
na marca-gosma das lesmas.

esse evangelho do lodo
vibra na parte e no todo
num pergaminho de pedras:

Que a chuva leve o que há de pior
que o vento traga o que há de melhor
que o fogo nos purifique
que a terra enfim frutifique
o amor.



sexta-feira, 4 de julho de 2014

Dos sonâmbulos









Richard Serra, out-of-round X, 1999

já pensou em não pensar ?
iluminar-se e iluminar.

acalma o lago frio e fundo do queixume
e traça novo rumo à travessia
tu sabes do silêncio que envolve a arma branca
e da peçonha-sangue do desprezo de um amante
ampara, pois, a asa fraturada do desejo
e nela deposita a frágil confiança
o vôo de ante-noite-orvalho-lua-cega
e suas criaturas febrifamintas e ciosas
nos redimirá em raio e gozo, estalo e estilo
na boca desdentada e mesmótona das manhãs.

já pensou em iluminar?
iluminar-se e não pensar 



A mãe gentil












O meu país navega em minhas veias
onde não há sinal de calmaria
no meu sangue esse país deságua
e no meu coração, por fim, naufraga

O meu país caminha em minhas veias
com suas vestes, rotas, maltrapilhas
esfomeado, no meu corpo, clama
e dos meus olhos salta e se derrama

Esse país que é tão meu, que é minhalma
que se confunde à dor desse meu peito
esse gigante, niño sonolento

me faz vestir o manto brasileiro
tecido em sangue, do melhor que havia,

en el tercer mundo, tropical sangria. 



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Mensagem na garrafa











para Théo e Vincent, uma ilha

I

O mar aqui não é o mar
o mar são as pessoas
que me cercam
que conheço, desconheço
finjo não conhecer
que não lembro mais.
O mar são elas
e minha mensagem não tem destino CLARO
tem objetivo, tenta ter sentido
e o sabor refinado para raros paladares
A ilha que sou
não se vê como se reflete
Que dor essa de náufrago em mim !
Onde foi parar minha caravela
seus restos, vejo-os aqui, e como dói recompô-los
um cão numa aquarela Turner de manhã
um cão-eu, ilha-eu, náufrago-eu, tudo e nada
EU
eu-pessoa, eu-não-pessoa, eu-coisa
eu-coletivo, eu-todo, eu-caco
eu-só, eu-resto, eu-sobra
eu
eu-labirinto, eu-míope, eu-carne
eu-vasto, eu-torpe, eu-Eu.
  
II
As solidões, fiéis companheiras
- éguas lanhadas e sem dentes
  pisando meus desejos -
elas, a própria carta triste de Van Gogh
para Théo e para Deus.
Solidões - plural - várias, distintas
conheço-as pelo som dos cascos na asa sul
em meu pasto a procriar.
Pelas tesourinhas, pelo monumental eixo
daquilo que não tem eixo: minha vida.
Como é terrível estar acompanhado não estando.
Minha garrafa ainda vazia
aguarda a mensagem não escrita
mas tão claramente estampada nos meus olhos
olhos bucaneiros, olhos barba-roxa
olhos marginais de um mar revolto
olhar  pirata de um lago que paira no ar
O mar são eles e elas
a ilha que eu sou afunda lentamente.
a imagem da tormenta configura-se,
concretiza-se, cristaliza-se
eu-tufão, eu-tempestade, eu-tsunami.
Meu Deus, e o amor ?
essa substância estranha que permeia minha carne.
Será ele, o amor, minha mensagem
ou o medo entranhado, ele sim, majestoso e imponente,
significa o que de real existe em minhas praias privativas ?
Não sei de onde sou, onde estou
meu eu-arquipélago.
Não aprendi essa difícil geografia
não entendo seus mapas
não me adianta bússola
Estou perdido
e o mar de gente ameaça a plantação
tão duramente cultivada
nessa fértil ilha-eu.




segunda-feira, 16 de junho de 2014

Um segundo


















Ninguem te vê chorar
Ninguém te vê
Ninguém
Ninguém nos vê em desespero
Ninguém nos sabe em pele ou pêlo
Ninguém, ninguém nos vê
Nem nosso segredo
Ninguém vê

Não tenho medo ou dó de mim
Mas quero tanto me ver inteiro
Resgatar um menino verdadeiro
Que anos de história sepultou
Está lá esse menino
Sozinho, pelo canto de mim
No mais escuro buraco de mim
E só eu sei dos seus soluços

Ninguém me vê tão só
Tão triste
Profundamente triste e só
Tudo pode estar por um segundo
Posso estar por um segundo
Pode estar por um segundo
Um segundo é o tempo para mudar o mundo
Para morrer no mundo
Para morrer o mundo
Um segundo
Não mais que um segundo.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sagrado Impromptu













Creia, sem desespero, e desapegue-se...
Na escuridão há luzes, mesmo que não veja
Há calor no mais gélido dos caminhos
Mesmo que não lhe aqueça
Saiba, nem tudo que aparece sob o céu
se pode apreender com o mero olhar
o olfato nunca alcança a natureza do perfume
e suas mãos nunca saberão do sangue que corre sob a pele
ouvido algum escuta o gemido da estrela.
Há mistérios na manhã mais luminosa
E é ali que as verdades se multiplicam.
O verbo não exprime o cheiro do gosto da cor que arde no trovão
No mais, meu amigo, a língua de deus no horizonte
Sob a linha d’agua, lambendo as nossas certezas.