quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
Seu nome
Não ouso dizer seu nome
- Não posso, não devo -
não virá enfeitar meus lábios
nem banhar-se em saliva
deslizando por minha língua impura
seu nome, não
e no entanto trago-o no peito
desfraldado em códigos que
só eu conheço
em uivo antigo de demônios
qual sussurros de morcegos
num sufocado grito rouco
no aconchego lânguido do leito
Mas ouso escrever seu nome
- Eu quero, desejo -
na silente criptografia dos anjos
inscrita na pele, na palma da mão
(como estigma)
a sagrada cartografia
onde, encontrando-te, me perco
Seu nome, sim
e por isso trago-o no peito
tatuado em meu mamilo
como animal que encilho
com as cilhas dos meus pelos
e saio cavalgando
no mais manso desespero.
Paraíso encontrado
Não me vês aqui?
Eu
teu Eden, maçã e serpente
primeiro e último pecado
Finca os pés, crava os dentes.
Se queres o paraíso, repara bem
nas mãos que te uniram
A mim
teu pasto, prado, porta escancarada
Entra sem aviso, dúvida ou receio
Penetra fundo, de corpo inteiro.
É a mim que procuras, desde sempre,
e nem percebes
que sempre estive à tua disposição
uma oferenda, despojo
Saqueia-me.
Vem, come o meu capim
Bebe a minha água
Traga o meu cigarro
Dorme em minha cama
Sonha meu sonho, vem
Saiba, meu amor
tudo sempre, em mim, foi teu
- muito antes do nada -
- muito antes do nada -
domingo, 23 de dezembro de 2018
Manual para armadilhas
É mais ou menos assim:
insiste por um tempo
insinua, nunca dê as caras,
marca território, joga a isca
puxa a corda, solta a linha
acredita no anzol.
Vai pelas beiradas, discretamente
pelo acostamento, quieto
não buzine, sem barulho
silêncio é fundamental
ser sorrateiro é imprescindível
ser sorrateiro é imprescindível
devagar e quase sempre,
pois todo sempre tem seu fim.
A grande delícia é o jogo
a partida em andamento
os momentos da caçada
os sorrisos trocados, as piscadelas
as brincadeiras sérias
que parecem falsas nas suas verdades
mais profundas que, não ditas,
são apenas deliciosamente imaginadas.
O gosto de pecado tão salutar
de transgredir, de ultrapassar
a expectativa, a tocaia
a antevéspera do bote que
talvez nem venha a acontecer
mas que o simples fato de
nele apostar te faz arrastar a asa
fraturada, que te impedia de voar,
e chegar perto do objeto do desejo.
É mais ou menos assim
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Eclesiastes (ou tudo tem a sua hora)
Noite, LAF, 2018
Sim, meu amor, concordo
É necessário enfrentar o machismo
Sem receio, firme e forte
Encarar o racismo
sem medo e meios-termos
Acabar com o fascismo
Intolerar os intolerantes
Você tem toda a razão
É preciso lutar e lutar e lutar
Não deixar pedra sobre porra nenhuma
dinamitar Mannhatan, se preciso
preservar as baleias, os micos
combater as epidemias na África
Desancar os neo-liberais
Escrachar os banqueiros
Fustigar o agro-negócio
Escorraçar a direita e sua maldade
Concordo totalmente com você
É preciso confrontá-los
Acabar com a homofobia
Com todo o preconceito
Você está certíssima, meu amor
Mas agora, por uns momentos,
Fecha os olhos
Fica em silêncio
E chupa o meu pau.
domingo, 16 de dezembro de 2018
A luz que não nos ilumina
Nu, LAF, 2018
para M.
Ah, se a luz rasgasse a escuridão
e iluminasse cada canto, antro, cova
cada cave, greta e grota
toda senda, fenda e fresta
toda escura e funda voçoroca
Ah, se a luz entrasse sem pedir licença
em todos os buracos e becos
sótãos, porões e quartos
nos quintos dos infernos de nós mesmos.
Mas não...
A luz só quer brilhar na superfície
onde existem máscaras, dentes brancos
sorrisos botulínicos e mãozinhas de seda
beijinhos intocáveis, olhares ensaiados
versinhos bem rimados, inofensivos
A luz só quer luzir onde não importa
onde ninguém arrota, peida ou palita os dentes
e todos estamos bem alimentados
papai, mamãe, filhinho na missa e no culto
sob a luz mais brilhante e fria
onde pulsam as terríveis pulsões
que se escondem na escuridão
dos cantos, antros, covas, caves, gretas, grotas
sendas, fendas, frestas,
fundas voçorocas
buracos e becos, sótãos, porões e quartos
e quintos dos infernos de nós mesmos.sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
Do meu desejo
Paisagem, 2018, LAF
Sabe, velho, cansei de falar de mim
Partes de antigos sonhos não me cabem mais
Forçaram a pele, romperam-na, fissuras enormes
expandiram-se como supernova, ganharam
terreno, derrubaram muros, cercas
invadiram territórios que não me pertenciam
ciscaram na grama do vizinho,
mas não quero falar disso, chega de mim!
Vamos falar da vontade de beijar na boca
de chupar lábios vermelho-sangue
de correr para o abraço sempre quente do amor
e deixar-se enovelar, deliciosamente
como presa de uma teia de aranha
sofregamente encasulado, sendo
sugado, das entranhas retirado
o tutano, a medula, o cerne, a essência
daquilo que me faz eu e que eu não quero
falar de mim neste momento, prefiro
falar de revoluções e épicas batalhas
de vitórias tremendas e derrotas homéricas
de sóis explodindo, planetas mortos
civilizações extintas, grandes bestas fossilizadas
e adjetivos gigantescos, do tamanho do
meu desejo, do meu desejo, do meu desejo.
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Eu, o Outro
Pássaros, 2018, LAF
A cada minuto
perco uma hora de sonhos
e uma vida inteira de desejos
como a luz que cisca no terreiro
procurando um pouquinho de escuridão;
como um parto mal realizado
cuspindo um feto disforme
no chão frio de um beco sujo;
como a corda que se parte num andaime
e os corpos que confundem-se com o asfalto
sujando a roupa de quem passa pro trabalho;
como a corda que não se partiu
presa ao pescoço de um poeta solitário
numa quitinete da Asa Norte;
como a carta de demissão no Natal,
o resultado positivo de um vírus indesejado,
o adeus de um amigo querido...
A cada minuto
deixo de ser eu para ser outro
que, do espelho, me aponta o dedo
- A culpa é só sua.
Assinar:
Postagens (Atom)





