sábado, 18 de janeiro de 2014

Passacaglia


Passacaglia (detail), 2007, Ann Preston



Não há drama
- tudo é invenção –

Sua dor? sua angústia?
a natureza não se espanta
explosões solares continuam
supernovas vêm e vão
por isso, amigo
não há drama
- tudo é ilusão –

O céu sobre a tua cabeça
não existe há zilênios
as estrelas mentem
com seu brilho espectral
seu desejo? seus fantasmas?
o mundo não reclama
mil impérios sucumbiram
mil sucumbirão
e o que resta
não é drama
- tudo é construção –

Seus anseios? seus terrores?
devaneios? seus rancores?
a vida não os chama
mil espécies se extinguiram
outras mil se extinguirão
não há drama
não há nada
- tudo é solidão –

Apenas o deslizar lento e silente
de uma grande serpente
também inexistente
além da possibilidade vã
e mesmo tu, pleno de dramas,
talvez não existas em plano algum
já imaginou seres o sonho de um verme?

Creia, tudo é mera criação.


Nota: passacaglia (ou passacale, ou passacalha) é um estilo de composição musical baseada num tema, que é repetido constantemente no baixo, e em variações sobre esse tema na melodia principal. A forma da passacaglia é tema e variação

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Babelical




Aos meus ouvidos
quem mais berra é o silêncio
quem mais clama é o silêncio
quem implora é o silêncio

Ao meu espírito
quem mais fala é o silêncio
quem mais sussurra é o silêncio
quem rejeita é o silêncio

o silêncio é ouvir pra dentro
o silêncio é a língua universal
o silêncio é o berro de todas as línguas
o silêncio.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Geometria do amor

Geometria do amor


Ah, se o amor não fosse esse mistério
a eterna sensação de estar perdido
o espaço do sossego consumido
na chama do mais puro desidério

quem dera que amar fosse preciso
um certo experimento controlado
um dado com o seis em cada lado
um jogo sem perdedores ou riscos

eu sei que o amor não tem carta marcada
por isso é tão gostoso de jogar
e perceber que em cada mão jogada

existe um jeito novo de ganhar
o amor é a geometria inexata
amar é quando a linha é não linear




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Para um amigo que se foi...

Para Paco Cac, ausente

                      Não há paz na página
                                                  Paco Cac

Não há lamento que persista na barba do tempo
tudo se dissolve nos segundos
mesmo a dor, e seu imundo sentimento,
se vai nas estações se sucedendo,
perdendo-se no olvido mais profundo
Das eras, nosso sonho é o excremento
que deixa seu odor em nossa história
Nada, absolutamente nada será sempre
seremos simplesmente nada pós-saudade
Disseram que você conseguiu finalmente
a viagem, a passagem, o sono, a voragem
conseguiu ser seu dono e seu carrasco
Disseram que se foi tão só quanto chegamos
e  que seu sorriso não mastiga mais nossos olhares
que seu olhar não mais nos vê sorrir de volta
Eu sinto o calafrio da ausência ainda presente
a poesia manchada em sangue frio e triste
e a falta dos projetos sempre em pauta.
Um dia, alguém vai comentar sobre os seus versos
ou sobre o seu instável estado - que era o seu estilo
e, assim como Bandeira, vou sorrir pensando em ti
no seu sorriso largo que não mais mastiga o vento
no seu olhar-imagem que se perde em meus neurônios
na tua vida, enfim, que agora é só lembrança.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Prece



Um dia que Deus estava a dormir
e o Espírito Santo andava a voar,
ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
                                            Alberto Caieiro


Não creio em milagres, declaro
mas gostaria tanto que houvesse
um, dois, três milagrezinhos que fossem...
se Deus existir, meu benzinho,
que ele tenha olhos enormes como os do lobo mau
olhos atentos, olhos de deus que enxerga
para ver tua beleza,  a tua graça
e, principalmente, todas as desgraças do mundo
se ele realmente for real, mais que um milagre,
que tenha grandes orelhas de abano
como de um elefante cósmico
e ouvido perfeito para abraçar o teu sorriso, teu gozo
e entender as  minhas preces por tua saúde
pelo teu bem, por tua paz
tímpanos epifânicos para escutar o choro dos milhões de miseráveis
os gritos de pavor dos desvalidos
o gemidinho triste de um bichinho que morre
um bicho em extinção.
se ele estiver presente, here and now,
que esteja ouvindo meus versos
com suas orelhas enormes de ganesha galático
e que, decididamente, não se faça de surdo.
ah, se Deus é mesmo concreto, meu bem,
se é palpável e benevolente como desejo
que ele realmente seja por nós
que somos do bem, do bom, da paz
do lado benéfico da luz
e que fique mesmo ao nosso lado
não corra da raia, não fuja para o mistério,
nos protegendo da escuridão
do aniquilamento
nos confortando com gosto e com vontade
sem fazer cara feia, nem cobrar dízimo.
se há um ser supremo e eterno
como garantem todas as escrituras
e berram todos os pastores da terra
que ele tenha olhos gigantes de predador atento
e uma boca enorme cheia de dentes afiados
emoldurada por lábios doces pra beijar a Terra
e uma  língua graciosa para lamber os corações gelados
como picolés carentes do paladar de um Deus
uma bocarra formidável para soprar com hálito quente as almas frias
e triturar em seus molares as armas de guerra
os corpos de guerra
as mentes de guerra
uma boca gigante de Deus da ira
para vomitar seu desprezo nos templos
nas igrejas, seminários, na esplanada
nas passeatas da noite escura em pleno dia.
se existe mesmo esse Deus de maravilhas
que ele tenha um cu sem tamanho
um cu universal, católico e protestante,
para despejar fezes de um deus da vingança
sobre os pastores da noite
os vendilhões da esperança.

ah, meu benzinho, que ele tenha enormes pés de Deus
com calos de Deus, chulé de Deus
para pisar sobre os hipócritas e sua hermenêutica doente
se Deus existir, meu amor
que ele me perdoe por te amar demais
e por querer o mal daqueles que promovem o mal.
que ele toque meu dedo com seu dedo de Deus bom e generoso

e me apresente todos os milagres.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A matéria do poema



                                                         Kandinski, Composition VI, 1913


Não se engane
um poema, pra ser poema,
tem que sangrar sem sangue
chorar sequinho, sorrir sem dentes
por que a poesia não é corpo
- pétala ou partícula de nada -
é um não-ser sendo, inexplicado
poema não é coração, nem veias
é pulso e batimentos
embora do corpo
- e do corpo com outros corpos -
o poema não é carne, nem tendão
é vento sem tato, imaginação
só sendo nada é que ele é tudo
como o mito
e é poema
tem que arder sem fogo,
doer com uma dor
que não se sabe de onde vem
nem por que dói
o poema é um aneurisma da alma
se alma houver
amputação da beleza do mistério
o insondável...







quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Geografia do corpo

Geografia do corpo

                                                                                   Sem título - Siron Franco
  
                                 
São tantos e tontos os mundos
no corpo de um só sujeito
que não tem modo, nem jeito
de eu não lhe perguntar:
quem descobriu sua ilha,
sua foz, seu continente?
quem bebeu, em sua nascente,
o líquido mais sagrado?
cada encontrado acidente,
cada vivido deserto.
todo rio, cada poente,
cada floresta intocada
em torno do seu umbigo.

são tantos os cantos do mundo
e tantos os mundos cantados
na geografia de um só sujeito
que não tem modo, nem jeito
de meu poema não cantar
quem se apossou dos seus sonhos?
quem descobriu seus desejos?
quem demarcou seus limites?
quem explorou os seus medos?

eu navego há tantos anos
que não guardo mais segredos
cada porto em mim se abre
cada nau em mim soçobra
e os resquícios dos naufrágios
vêm bater em minha porta
os baús todos lacrados
flutuando em minha pele
oceano-tez marcado
pelo tempo, intempéries
sou assim um mundo inteiro
de fragatas, quilhas, velas
todas elas navegando
e meu corpo é todas elas

somos todos tantos mundos
muitos deles não trillhados
esperando um terra-à-vista
e o assentamento de um marco
que não tem modo, nem jeito
de meu canto terminar
no fim de cada sujeito
há um outro mundo inteiro
e outro mundo e outro jeito
de a gente navegar.