sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A História da História










Reza a história
Deus fez o mundo por classes
a operária e seus panfletos
a campesina e seus novilhos
a milionária e seus fedelhos
a burguesia e seus conflitos

PS: a burocrata e seus adendos

Deus fez um mundo perplexo
o operário e o camponês
devotos
o milionário e o burguês
devassos

Reza a história
o operário escreveu panfletos de modo aflito
o camponês perdeu novilhos de fome e sede
o milionário criou fedelhos no ócio e vício
o burguês criou complexos de medo e cio
o burocrata organizou fichários e verbetes
e pôs o Senhor no arquivo morto
por excesso nos pendentes


Deus, arrependido da criação,
para reparar o erro
inspirou um pobre alemão
a fundar o Partido Comunista
e finalmente, como bom baiano,
foi para Arembepe pegar um bronzeado
deitar suas fartas barbas na água quente dos trópicos
e esperar a hora do juízo
... que ninguém é de ferro.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Do homem


















Onde o homem bota a mão
Há beleza e podridão
Se é de humana gestação
Tens o gozo e a danação.

Onde encontro o humano tato
Tenho a flor e o chão queimado
Onde o engenho humano é dado
Vejo a cura e o abortado.

Besta e anjo, deus e caos
Segue o homem seu calvário
De ser céu e ser inferno
Sendo um que é sempre vários
De ser luz e escuridão
Ser certeza e ser engano
Monstruoso e angelical
Simplesmente ser humano





sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Dono de mim















Perdoa, amor, se não te trago flores
Nem perfume de raro olor
ou singularíssimos odores;
se não te mostro dentes brancos,
roupa de linho, mãos macias; perdoa
se não te toco como o hálito de um deus
ou se não rio o riso de um encantado.
Perdoa, amor, se não te ofereço conforto
consolo, aconchego, carinho e colo.
Perdoa se caos e não sossego,
se não tenho nada daquilo que esperas,
se não sou realmente aquilo que projetas,
se não estou propício a ser e ter o que te agrada,
pois sou dono de mim.

Perdoa, amor, se não tenho palavras raras,
se minha língua baba mais do que o devido,
se meu suor é mais visguento que o preciso,
se meus pés correm mais caminhos que os avisos
de não correr, de não suar e de não babar.
Perdoa, amor, se meus limites vão além do teu infinito,
se sou muito maior que o teu incabível,
se minhas asas te importunam, causam espirros,
se não posso nunca ser o que pensas que precisas
Perdoa, amor, por amares em mim o não tido,
por portar a nódoa, a marca, a mácula das ruas
e por trazer as mãos sujas do barro do real,
pois sou dono de mim.







terça-feira, 5 de agosto de 2014

Script

Se morre um menino
sob as patas do adulto triste,
o que existe,
além do dedo em riste?

O que resiste
é o inexorável destino que ainda insiste:
o adulto morto num menino que persiste.




terça-feira, 15 de julho de 2014

Dos desertos








Dedicado a um poeta em depressão


Os poetas são animais em extinção
Tombam como sibipirunas e jacarandás
Rarefeitos como ar puro
Vão-se feito ararinhas azuis... minguando.
Os bons versos são mico-leões dourados
Carecem de que se lhes dêem o valor de sua raridade
Somem-se em vez de somarem-se
E nisso vai-se também nossa alma apaixonada.
È preciso preservar os ipês e os poetas
As Baleias e os versos
A ética e o tigre albino de Pequim.
É necessário proteger a mata atlântica
E resgatar os bons sonetos
Pois se morremos com rios poluídos
Tornamo-nos tristes sem a poesia
Bestas ficamos sem arte e sem ar
Sem magia, sem estranhamento, sem ritmo
Sem pulso, sem penas, sem escamas, sem rimas
Sem vôo, sem delírio, sem mergulho, sem bicos
Sem lábios, sem garras, sem fibras, sem vida.
Temos mata, rio e bicho em nossa alma
E se matamo-los fora de nós
Morremo-nos também inteiramente
Sobrando-nos a assustadora possibilidade
De rimarmos o deserto ante nossos olhos
Com o deserto de nosso espírito.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Eu e ele







"Weird cloud formation", Goro Fujita


Quando digo não
meu coração reclama
ele sabe - e eu sei -
que definitivamente
não nos conhecemos

ele é sempre o bom menino
eu, o sacana
sou sempre o estraga-festa
ele, o bacana

meu coração não me engana

ele ateia o fogo
eu que vou em cana
ele quebra os vidros
eu que levo a fama
ele o mais esperto
eu sempre o banana

meu coração me esgana.





terça-feira, 8 de julho de 2014

Evangelho do Lodo









À maneira de Manoel de Barros


Sinto as raízes cantando
no tom do lodo e das pedras
o cheiro doce da luz das rãs

a carne farta da terra
anoitecendo nas gias
lesmando o sonho...desacordar.

Amanhecerei orvalho
entardecerei riacho
anoitecerei no teu suor

madrugarei tempestade
vento ventando vontades
serei semente vibrando ao sol

Almas das águas dos rios
borboletando no cio
do faz-de-conta que não tem fim

e ao me perder, criar limo
brotar canção, virar bicho.
Sei do desgosto de ser capim

O desandar das lagartas
sobre o azul de fastio
tanta saudade chovendo em mim

pelas goteiras da alma
sinto encharcar-me da calma
de quem sabe que trilha seguir.

Saudade é a luz quando escuro
o deslizar nobre e seguro
das cobras d' água no pantanal

bicho sem nem canseira
eis a saudade...certeira
ei-la, tocaia no meu quintal.
  
Se sabe a cruz, sabe a chaga
de quem conduz pela espada
de quem tem justo por não crer

na paz das almas marcadas
no chão das crias aladas
no que se passa antes de chover

Vem ver a noite emprenhada
a cor da estrela abortada
na marca-gosma das lesmas.

esse evangelho do lodo
vibra na parte e no todo
num pergaminho de pedras:

Que a chuva leve o que há de pior
que o vento traga o que há de melhor
que o fogo nos purifique
que a terra enfim frutifique
o amor.