terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Janela da infância


Meu pai saía cedo
com o cheiro bom de café
e o sol nascendo sem pressa
Da janela, o mundo me chegava aos pedaços
primeiro, o azul e branco do céu
depois o verde das mangueiras, pontilhado de amarelos
finalmente, a terra vermelha, molhada
os vasos de flores, as rosas e margaridas
as galinhas correndo no quintal
Minha mãe, cantando, coava o dia
e o cheiro da manhã deitava em minha cama.




Foto: João Mattos

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sinal dos tempos (uma canção)

Enquanto a gente se enganava com sinais e roupa usada, havia um jeito, em nós, de pura fé
Na rua suja de São Paulo, um guerrilheiro sobre o asfalto sangrava em pura fé.
No nosso lado escuro, sem montanhas, você vê que é difícil realmente amanhecer
Portando os sonhos de anteontem, trajando o riso sobre a fome,
Pedindo o pé do louro pra comer

E o pássaro cantando sob a noite deste sol
Diz que jaz na sala o teu retrato
E o som do rock and roll
Tudo que nos resta, velhos sonhos, nada mais.

Eu vou morrer assassinado sob o sol do mundo errado ou sempre esteve escrito que é assim
O guarda à porta do meu quarto, a mão da morta no meu saco... um sonho ruim
Quem sabe eu cante no Dakota e diga enfim que a terra é nossa em alto, puro e pobre português
Quem vai negar que não tentamos, só por que nos enganamos,
Roupa usada serve pra aquecer.

E o pássaro cantando sob a noite deste sol
Diz que jaz na sala o teu retrato
E o som do rock and roll
Tudo que nos resta, velhos sonhos, nada mais.

Na noite sem estrelas, sem desejos, só pavor, você teme que eu te abrace e que haja sol
Por que toda certeza vem brotar no seu quintal, putrefata flor sem viço, Flor do mal.
Escuto alguém chorando lá no fim do corredor. Ninguém move um dedo para confortá-lo
Será que é tão difícil assim doar-se por amor ao estranho que te cerca ao caminhar.

E o pássaro cantando sob a noite deste sol
Diz que jaz na sala o teu retrato
E o som do rock and roll
Tudo que nos resta, velhos sonhos, nada mais.

Eu vejo a escuridão chegando lentamente aqui e os fascistas vêm marchando sem temor
Pisando em pobres, gays, mulheres, negros, travestis, putas, índios...
Vêm trazendo o seu terror.
O que mais me machuca é o silêncio do homem bom que se cala ante o mal que aí está
são tempos de descrença, desamparo e desamor, e eu te vejo tão tranquilo a bocejar.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A velha senhora

                para a poesia de Devair Fiorotti

Um poeta vê a morte como casa
nada dentro
Sem porta e sem janela
Absolutamente nada.

Talvez seja a morte a própria casa
E dentro dela, o nada que é tudo,
Casulo, última morada
dos rebentos numa casa sem janela
sem porta, sem teto
só dentro, dentro nada.

Só mesmo a poesia para beijar a morte
e fugir de sua língua enregelada
de suas mãos, tesouras cegas,
da carícia fatal que traz o nada
e que é o fim de tudo.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Falando de amor




Meu primeiro amor morreu
Foi-se
Foram-se o segundo, o terceiro
Desapareceu o quarto
Perdi o quinto, o sexto, o sétimo
Nenhuma notícia do oitavo, do nono
São vários os amores que perdemos
Todos eles, um dia, se vão
Como chuva e trovão
Inevitavelmente
Sua umidade permanece por um tempo
mas também se vai, aos poucos, sumindo de mim
Que fico seco e sem marcas.
O amor foi feito para ser como a chuva
Para umidecer a terra seca do coração
Daí por que vem e vai
Em temporadas de estio e inverno


O amor é o Nilo de nosso íntimo Egito
É preciso parcimônia, mesmo que se nos devore,
Para que também não se afogue o peito
E não nos tornemos inundação.
O amor deve ser como o trovão
Ensurdecendo a alma cega pelo relâmpago
que Ilumina o caminho do amante
e também sumindo, breve, fugaz
deixa aquele gostinho de fogo
aquele lampejo, arrepio
na língua eternamente carente da alma que ama.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Eppur si muove












Mesmo sem você, brilhará o sol
E se eu te perder de vez, brilhará o sol
Mesmo que a maré despeje peixes mortos pela praia
E que a floresta torne-se um deserto imenso e os rios sequem,
brilhará o sol

Mesmo em meio a dor, brilhará o sol
E no fim de todo amor, brilhará o sol.
Mesmo que eu me rasgue todo em desespero, nu em pelo
Mesmo sob a noite do maior dos pesadelos,
brilhará o sol

Que vã pretensão
De ser mais que o chão
De ser mais que lama e lodo e limo e lixo
Toda imensidão
Do meu coração
Perde-se nas chamas do desejo infindo.

Para os que sofrem, brilhará o sol
Para os que gozam, brilhará o sol
Para os que se explodem numa rua suja de Bagdá,
Pros excomungados, para os santos sem pecados,
brilhará o sol

Se tudo acabar, brilhará o sol
E nada sobrar de nós, brilhará o sol
Mesmo sob toda escuridão e além do breu,
Mesmo que o planeta exploda com você e eu, brilhará o sol.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A construção do sonho



Para José Dirceu, herói do povo brasileiro








O homem nasce cheio de esperança
e sonha exatamente enquanto cresce
trabalha dia e noite e enfim percebe
que só sonhar não basta e então se cansa.

O homem que sozinho sonha, perde
Um tempo precioso e não avança
É como um dançarino que não dança
No baile da história que lhe esquece.

Pra construir um sonho não se dorme
pois acordado é que se vai a luta
sem medo do combate mais medonho.

Se o homem quer um mundo menos pobre
E o braço amigo acolhe, não refuta,
Para a realidade, traz o sonho.






quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Convite



Não durmamos
Não,
não nos deixemos inebriar pelo sono mau
Não
Abramos os olhos para a noite escura e tudo enxergaremos
Sim
Vamos, sem medo, sem pressa, ofuscarmo-nos com toda a possibilidade
                             de sermos felizes e despertos e atentos,
                                             pois a felicidade é, mesmo tristes, sabermos seus limites
seu alcance, seu fôlego e a dimensão de tudo isso.
Vem, eu te convido.

Há os felizes que dormem o sono dos mansos
e se embebedam com o vinho da auto-suficiência
escorregam feito caracóis, lentos e lúbricos, em torno de umbigos enormes.
Não os invejemos, mas lamentemos a formidável sorte
desses ébrios estúpidos que confundem felicidade com facilidade
e cegos seguem com sorrisos falsamente sinceros.

Acordemos todos e percebamos o quão tristes estamos
– não somos! -
Quando a felicidade que temos é apenas nossa
Quando o sorriso que trazemos não se expande e, murcho, amarela na raiz
Quando o que nos faz vibrar não tange aqueles corações que seguem mudos
Quando a brisa que nos bafeja não refresca o corpo irmão
Quando os anjos que nos cantam olvidaram outros espíritos
Quando somos sós e sós e sós e não partilhamos o raro instante
e nos deixamos tentar pela linha reta dessa vida tortuosa e vária.
somos tristes.

Não existe felicidade individual se estamos despertos
Mas tampouco é felicidade aquela que a noite do mal alimenta e entorpece
Vamos, não tema, vem depressa...corre!
Não durmamos, pois o carro da história não espera e nem ampara os que dormem
E não te quero ver sumir no horizonte
quando a felicidade apontar no sem-fim dos trilhos.