segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Depois da tempestade





















Para meus amigos de trincheira

Na manhã seguinte,
depois da grande tempestade,
havia, espalhados pela praia, restos de uma grande embarcação
muitos corpos jaziam de olhos abertos,
estáticos, aterrorizados,
e um silencio assustador berrava do oceano
- Tempo de ceifar, tempo de ceifar –
mas um deles levantou-se
e começou a juntar os pedaços
disciplinadamente
recompondo-os obstinadamente
na tentativa evidente de reconstruir a nave
no que foi seguido por outro e mais outro
e mais outro
e logo todos estavam trabalhando sem medo
e cantando alegremente contra o vento e contra as marés
- Tempo de reconstruir, tempo de reconstruir –

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Pesadelo


    














Sem título, Leo Almeida, 2018


para uma faca

Não retirem as crianças da sala, deixem-nas,
é preciso que vejam o dedo em riste do Coiso,
é preciso que se mordam, se rasguem, que sangrem devagar,
pois o sacrifício infante do futuro faz parte do ritual da ascensão do Coiso
Na sala, diante da tv, a família de bem, branca e cristã,
reza pela saúde do Coiso e pela morte de negros bandidos,
pela eliminação de lascivos e preguiçosos quilombolas,
pela erradicação da epidemia de veados no país
pela colocação da mulher em seu devido lugar
como prometeu o Coiso que fará.
E será na pancada que o macho vingará e tornar-se-á cidadão do bem,
bom cristão com o cu íntegro e a alma avariada.
Na bala, garantirão um país do atraso, um talibanato tupiniquim
pela honra e glória de um Jesus Cristo hegemônico e envergonhado.
Em cada escola, a foto de heróis que matam cidadãos amarrados,
de heróis que torturam operários, estudantes, profissionais liberais
e talvez, então, seja feriado na data de nascimento do grande torturador
ídolo do Coiso e de uma legião de animais que babam seu ódio
sobre nossas cabeças abaixadas e covardes.
E então, quando o país mergulhar na escuridão,
e nossos jardins estiverem arrasados,
poderemos chorar pelos cantos, escondidos,
- homem que é homem não chora –
de tristeza e arrependimento,
e ninguém vai ver.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O olho do boi











Ela quer que eu fale de flores
de rosas, crisântemos, talvez lírios
- não são lindas? –
Ela quer, ela quer, meu deus, ela quer
porém não sei uma pétala sequer
de lírios, rosas ou crisântemos.
Então ela insiste que eu cante uma balada,
uma canção de Cat Stevens, um blues
- Sua voz é tão linda quando canta Where do the children play?
Pode ser? –
Ela quer, ela quer, meu bom deus, ela quer
mas meu violão desafinou na eternidade quando,
em alguma dobra, enforquei-me em suas cordas de aço
e meus dedos,sangrando, perderam-se nos trastes
Digo a ela que não rola: - Fica tristinha, não!
Prefiro em silêncio observar as mãos que ela exibe enquanto fala
e que ficam borboletando sobre o meu desejo
em seu casulo prestes a romper-se.
Ela dorme o sono manso dos que acreditam
que tudo é para sempre, que todos são felizes
mas há tempos algo me impede de sorrir
Enquanto ela me arrasta para a luz
eu só penso na lágrima do boi antes do abate
enquanto ela me convida para dançar na luz
eu sinto a dor do boi antes do abate
e quando ela me abre os olhos para a luz
me vejo no lugar do boi e do abatedor
e tudo é tão escuro,tão escuro
que dá medo.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

De escritores e seus livros















Ei-lo, com seu livrilho,
desfila a face orgulhosa pelo Face
sorrindo para a lente digital de um celular:
Pose ensaiada na falsa cara séria de escritor que lambe a cria
e carrega nos olhos a esperança de prêmios e da conquista
do amor das mulheres ou dos homens
- como dizia Sigmund entre baforadas.
Será sempre assim
num país onde não se lê:
Suas obras expostas no Instagram, no Whatsapp,
regurgitam, em pigmento e gramatura, a sua fé
a mais rasteira, a mais chã, a mais profunda crença dessas criaturas de Carbono e amoníaco:
a aposta na sobrevida, apesar das garras do espetáculo
cravadas em seu pomo de Adão, sufocando o grito e o gozo demoníaco
da sombra que assombra a vaidade.
Este é um mundinho besta, né, Carlos?

terça-feira, 10 de julho de 2018

Carpintaria














That Which I should Have Done I did not do (The Door)
Ivan Albright
1931/1941





Teclo em silêncio os berros
que a tela imprime em meus olhos
Nesse momento estou só.
Também em silêncio, as dores
que o computador desenha e expõe
à minha figura solitária.
Questão de modos, de medos
ou de moda, sabe-se lá onde residem
os desejos não satisfeitos...
Talvez num verso estragado,
numa canção sem refrão,
na descrição de um pássaro,
de um pasto, de prédio,
ou mesmo numa aquarela muito aguada
Quem sabe num longo parágrafo
de um romance nunca lido
escondam-se os desejos não gratificados?
Então não devo – nem vou - cobrar-me,
exigir de mim o berro que o silêncio imprime na tela
e a dor que, em silêncio, se faz pixel e se oferece
à minha solidão. Não.
Meu papel é berrar e doer
como todo poeta berra e se dói
em seus desejos insatisfeitos.